segunda-feira, 20 de abril de 2015

A Filha do Padeirinho

Padeirinho era como chamavam meu bisavô,  filho de imigrante italiano, homem muito bravo, mas nos meus tempos de criança, ele era mais frágil do que eu, a passar os dias na cama por causa dos seus problemas de saúde. "Benção, vô!". "Deus te abençoe, meu filho. Chega mais perto pra eu te ver melhor. Voce é filho de quem?" Todo dia era assim, ele já nao enxergava direito. Sua esposa, minha bisavó, ainda fazia os serviços de casa, mesmo caminhando com dificuldade. Tinha um bolinho de arroz que ela fazia que era uma delícia, nunca comi outro igual. Lembro-me dos meus bisavós com muita saudade! Mais saudade ainda eu tenho da filha do Padeirinho, essa era minha avó. Porque a saudade dela se mistura com a saudade da minha infância. Lembrar da minha avó tem gosto de carambola madura e também de manga espada! Melhor nem falar no pãozinho de sal quentinho com manteiga! 
Minha avó foi uma das moças mais lindas da cidade, até hoje quando alguém vê sua foto de casamento que meu pai tem na parede de sua casa, a admiraçao é algo esperado: "Como ela era linda!" Casou-se jovem e jovem ficou viúva, com pouco mais de cinquenta anos. Continuou sua vida pensando nos filhos. Onze filhos ela teve, oito homens e três mulheres. Amou todos eles. Teve também a dor de perder seu primogênito, quando ele havia somente quatorze anos e um coração tão fraco. 
Em várias imagens da minha infância, a casa da minha avó é sempre presente. Imagens maravilhosas cheias de risadas como a visita dos tios e primos, brincadeiras como pega-pega, pique-esconde e birosca, além de quebrar coquinho das castanhas da castanheira que havia na frente da casa. Mas imagens dolorosas também foram presentes, como quando fui derrubado e atacado na garganta pelo cachorrinho "pretinho". Mas não foi sua culpa, ele estava comendo e eu fiquei lá, perto dele. As duas vezes em que quebrei meu braço, uma foi dentro da casa e a outra do lado de fora da escola, a cinquenta metros dalì. Porém a maior tristeza foi, na verdade, a despedida do nosso avô querido, o seu esposo. Foi muito triste. 
Sendo um dos netos mais velhos, sou do tempo em que a casa era com o quintal de terra. Havia uma divisória de madeira que separava a área do pé de manga espada com a área do pé de carambola. Havia um outro pé de manga na porta da antiga cozinha e foi cortado para se construir no local. Parte da companhia de minha avó eram seus passarinhos: um casal de melro, um coleirinho e um estrelinha, além do Bob, o cãozinho que lá ficou por mais de quatorze anos, até que um dia foi pra rua e nunca mais apareceu. Bob era viciado em miolo de pão de sal. Tempos depois viriam a fazer parte das companhias um papagaio e uma maritaca.
Saudade da minha avò...
Por um ano e meio tive que morar com ela. Eu tinha onze anos. Meus pais tinham se mudado para a roça e eu fiquei com ela para poder continuar os estudos. Naquela época eu detestava feijões inteiros, mas era assim que ela sempre os preparava. Hoje, quando preparo feijões inteiros, ela está presente. Uma coisa engraçada é que ela não gostava quando eu começava a cochilar lá pelas oito da noite, estava cansado e estudava de manhã. Ela dizia que eu não era bom para fazer companhia para ela porque eu dormia cedo. A parte engraçada não era essa, era que, por causa do calmante e mais outros remédios que ela tomava, entre as três e seis da tarde ela ficava cochilando no sofá e depois perdia o sono de noite. Ás vezes, eu acordava por volta das cinco da manhã com o barulho dela lavando vasilhas na cozinha. Não é fácil conviver com o efeitos de medicamentos. Por falar em medicamentos, a imagem que ela passava era de uma colecionadora de remédios. Em cada gaveta da casa, sempre havia algum remédio. Era algo tão forte que ela já começava a nos medicar, indicando os remédios para as dores ou problemas que de vez em quando nós nos lamentávamos. Ah, minha vó, que saudade! 
Nesse período, ela também passou a dormir na casa da sua mãe, a minha bisavó. Meu tio e meu irmão, que também moravam conosco, chegavam tarde e eu ficava sozinho em casa morrendo de medo por causa dos contos de terror que os mais velhos nos contavam (por que eles fazem isso com as crianças, hein?). Ás vezes, nem ia ao banheiro de tanto medo, ficava na frente da tevê e, de vez em quando, dava uma olhadinha para a parede ou porta, imaginando que alguma assombração pudesse aparecer. Outras vezes, o medo era maior, então eu ficava na rua até tarde. 
Aconteceu também que uma vez ao chegar da escola, a encontrei preocupada, dizendo que eu deveria tomar cuidado quando brincasse no terreiro porque estava suspeitando que havia cobras por lá. Que, inclusive, havia encontrado um "buraco de cobra"."Vem que eu te mostro", me disse. Ela me mostrou o tal buraco e eu comecei a rir. "Calma, vó, isso não é buraco de cobra não. Fui eu que fiz ontem com a água da mangueira quando vim aguar as plantas". "Quer me matar do coração, menino!". Ainda bem que não pensou em me bater. 
O tempo passou e me mudei da cidade, onde passei a ir somente a passeio. Ia visitá-la sempre que podia. Mas um dia a casa foi vendida e ela se mudou da minha cidade natal. Confesso que nunca consegui superar a venda da casa da minha avó. Quando passo por lá, faço questão de vê-la, não é a mesma, foi modificada, mas eu ainda sinto ciúmes dela. É como se tivessem adquirido a casa com um pedaço da minha infância. Naquela casa tem um pedaço da história de cada um de nós, filhos, netos, genros e noras. Um pedaço de saudade.
Fui visitar minha avó em outras casas, mas era tudo diferente. 
Hoje ela não está mais entre nós, mas vive em nossos corações.
A saudade da minha vó tem a imagem da terra natal, do sorriso inocente e das lágrimas sinceras das crianças.

Wagney Hipolito 14.12.14

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Amargas lembranças de uma infância com véu

Per la lettura in lingua italiana, clicca qui:
Amari ricordi di un’infanzia col velo


Eis que o meu rosto eu escondo
Pois, o mesmo, pode ser teu próprio rosto
O rosto dele ou dela
Ou talvez de todos nós
Que temos preferido ser somente uma voz
Que fala de um silêncio do passado
Que é logo ali ao se lembrar
De um tempo quando calar
Era estar em lugar seguro,
Num mundo onde a segurança não existe,
Nem mesmo dentro de casa,
Nem mesmo no coração,
Nem mesmo em silêncio,
Seja noite ou seja dia.
Onde um falar não há valor nem credibilidade
E alimentam dúvidas que duram eternamente
“Não acreditam ou são também cúmplices, corruptos?”
Hoje é minha mente adulta a perguntar assim
Não aquela do tempo da minha inocência
Aquela inocência obrigada a conhecer a traição
Sem saber ao menos o que essa significasse
E que permaneceu no silêncio...
“Medo ou trauma?”
Hoje creio que tenha sido algo mais: vergonha
Talvez a mais adequada palavra
Vergonha do sujeito, da ação e do objeto.
“Será uma normal ação do ser humano?”
Uma resposta positiva gera ainda mais vergonha.
Por fim existe aquele que é mais vergonhoso: o autor,
O traidor perverso, tal qual um predador.
Sujeito imundo e sem escrúpulos
Que não é capaz de ser mais forte que sua própria natureza animal
Um impotente.
Consegue pois enganar, trair
Usar sua força instintiva,
Seja física ou mental,
Para atingir seu objetivo,
Não se importando com os sentimentos alheios.

Somos seres egoístas e possessivos,
Hoje posso perceber.
Lutamos continuamente contra a parte animal
Que cada um carrega dentro de si.
Mas é, todavia, essa mesma luta
Que nos transforma cada vez mais
Em seres racionais,
Pois é o exercício do raciocínio
E o domínio dos nossos desejos
Que nos tornam verdadeiramente racionais.
Entendi, então, que ser demasiadamente emotivo ou instintivo
Não contribui para um bom convívio em meio aos nossos semelhantes.
Assim sendo,
Ser racional vem a ser, portanto,
A capacidade de ponderar o nosso lado emotivo com aquele instintivo,
Adquirindo, pois, um equilíbrio no interagir com os da nossa espécie.
E como podemos considerar racional aquele que não consegue controlar os seus instintos,
Estando a mercê dos seus desejos,
E cometendo a violação daquilo que é puro, pois ainda é sem conhecimento,
Causando pois uma série de confusões mentais que podem gerar traumas
Que poderão permancecer até mesmo durante toda a vida desse ser ainda inocente?
As crianças crescem e adquirem conhecimento
As imagens não vão embora.
O quebra-cabeça é montado.
Tudo se torna mais claro na escuridão daquelas lembranças.
Eu cresci e muitos como eu cresceram também
E passamos a entender todos aqueles acontecimentos.
Poucos são os que conseguem falar,
Pois é como já explicado antes: é vergonhoso
E ao mesmo tempo fere, dói.
Estranhamente, hoje parece que dói mais que naquele tempo.
Talvez porque antes eu não entendia,
Hoje sei o que é.
Antes eu tinha medo, mas hoje não,
Porém as palavras se ditas hoje
Talvez sejam iguais àquelas que eu não disse: sem valor.
Não mudará o que aconteceu.
A vergonha, infelizmente,
Continua a mesma de antes.
Antes as pessoas tinham somente nomes para mim
Hoje sei que é mais que isso,
Sei que as pessoas podem ser identificadas
Através de dados pessoais
Sistematicamente catalogados
Mas o que elas são realmente por dentro,
O caráter de cada uma delas,
Isso não possui identidade.
Um assassino, um maníaco, um psicopata, um pedófilo ou um estuprador
Não possui um documento de identificação
E nem se nota, com muita certeza, pelo seu rosto ou seus gestos.
Pode ser qualquer um ao nosso redor,
No trabalho, na escola, no ônibus, na rua, na igreja
E ainda pior,
Dentro da nossa própria casa.
Seja através de vielas imundas e tortas
Ou a mais bela paisagem
A consciência se faz sempre viva,
É uma inevitável capacidade do ser humano.
Alguns podem me julgar pelo meu silêncio
Ou se sentirem culpados pelo seu próprio silêncio
Muitos poderão dizer hoje que jamais teriam se calado
Mas basta um olhar com um pouco mais de atenção ao nosso redor
E encontraremos uma infinidade de fatos que nem sequer nos manifestamos
Fazemos uso somente do nosso tão adorado direito de permanecer calados
Até mesmo quando se trata de se manifestar
A respeito dos nossos próprios direitos e interesses
Seja no trabalho, na escola, no ônibus, na rua, na igreja
E ainda pior,
Dentro da nossa própria casa.
A frase se repete, como se repete o ciclo da vida
E como se repetem as ações dos seres humanos
E as consequências dessas ações
Um pouco mais de atenção, um simples gesto assim,
Já poderia ser muito para mudar o curso da vida de muitos.
Um pouco mais de atenção
Seja no trabalho, na escola, no ônibus, na rua, na igreja
E melhor ainda,
Dentro da nossa própria casa.
Wagney Hipolito 01.04.2015